domingo, 31 de maio de 2009

É para isto que servem os treinos - Relato Elisabete Jacinto


Foi uma grande azafama toda a construção do camião e trabalhamos todos muito. Tínhamos data marcada para partir para Marrocos e não havia alternativa.

Havia que testar o camião e voltar para Portugal a tempo de fazer algumas correcções com o objectivo de participar no Transibérico, prova da Taça do Mundo realizada em Portugal e Espanha que seria pela primeira vez aberta a camiões.

Fazer a primeira prova em Portugal era um verdadeiro bom-bom e estávamos todos entusiasmados. A viagem foi lenta com algumas peripécias, entre elas, uma travessia do Atlas com temperaturas bastante baixas para a época do ano e um nevoeiro cerrado. Alguns enganos de caminho e umas paragens imprevistas do camião de assistência.

Mal chegamos começamos a trabalhar na mecânica. Havia alguns acabamentos a fazer pelo que o primeiro dia, aqui à beira das dunas, foi dia de descanso para mim. Dormi quase até ao meio dia e, como se isso não bastasse, ainda fiz uma boa sesta.

No segundo dia começamos a trabalhar nos amortecedores e lá peguei no camião para o testar em pequenas voltas. Abrimos os amortecedores da frente apenas duas vezes sendo que a segunda serviu para me dar ao luxo de experimentar uma afinação diferente. Nos detrás não foi preciso fazer qualquer alteração no seu interior. O Rui Moreira mostrou-se um verdadeiro conhecedor em matéria de amortecedores para camião.

Começamos por rodar em pista a fazer antigos percursos do Dakar e comei a gostar de conduzir este MAN. Houve momentos em que o considerei um verdadeiro avião.

Entretanto havia uma batida que nos fez perder bastante tempo para encontrar a sua origem e que nos deu até algumas dores de cabeça. Trabalhou-se ao sol com quarenta graus de temperatura e finalmente lá se descobriu a origem do problema. Eram os apoios da frente da cabine que estavam a ceder e não tínhamos outros para substituir. Tínhamos que arranjar forma de construir uns mais resistentes. Percebemos nesse momento que o treino teria de terminar mais cedo. Quanto aguentariam? Não sabíamos. Apressei-me, por isso, a conduzir na areia.

Para além dos apoios da cabine fomos encontrando várias pequenas coisas que tinham de ser aperfeiçoadas e acabamos com uma lista enorme
de trabalho para fazer. Afinal de contas é para isso mesmo que servem os treinos!

Os homens da imagem chegaram e dediquei largas horas a fazer passagens em frente à câmara de filmar e de fotografar. As ultimas fotos nas dunas já foram feitas com um cuidado especial, mau grado a desilusão do fotografo que lá me ia pedindo, sem sucesso, uns saltos para a câmara.

Foi com algum desapontamento da minha parte que fiz as malas para voltar para casa. Não só porque gostava de ter feito mais alguns quilómetros mas porque acabamos por receber a má notícia de que, afinal, não haveria camiões no Transibérico.

Elisabete Jacinto

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